MOVIMENTO - FRENESI ESCARLATE
MOVIMENTO 1
Sigo em frente. Meço passo por passo em pés tortos, enquanto meu coração segue o compasso do tique-taquear do tempo. Penso: que tempo? De quem é este tempo? Será que ele é meu?
O que tenho feito? O que estou fazendo? Meu pé vacila, caio da escada. Meu pé torto não é, e nem nunca foi, um problema. Penso enunciados: "ele só me atrapalha quando..."
Me atrapalha? Desde quando comecei a pensar que o meu corpo me atrapalha? Ele parece, nas línguas que ouço, estar entre. Entre a minha pessoa e algo que, supostamente, está do outro lado. Ele é um impedimento, então? Está no meio do caminho? No meio do caminho tinha um corpo, tinha um corpo no meio do caminho - nunca me esquecerei deste acontecimento.
Quando encontrei o meu corpo, comecei a pensar no que estaria do outro lado.
Sigo em frente, passo a passo em pés tortos. O meu coração segue qual compasso? É tão simples assim compreender o tempo? O que é o tempo?
No fim das contas, eu acho que o tempo não existe por si só: seria uma abstração? Mas o que captura o meu tempo?
Perigo: o que captura meu tempo, captura, também, as batidas do meu coração.
O que captura meu tempo, captura meus pés, meus passos. Captura meu corpo, faz com que ele seja um impedimento. Quer dizer que eu preciso passar por cima ou ao lado do meu corpo para atingir o que todos dizem que eu preciso? Nós não precisamos nada.
Um movimento, valsa reflexiva - o tempo, meu tempo, cadê? Será que tenho seguido, vivido, presenciado o meu tempo? Não. Meu tempo foi, há muito tempo, capturado. N'A Torre, escrevo sobre os Mascarados, mas eles não são abstrações - eles são reais e estão do nosso lado, no aqui e agora. Eles olham sempre para o relógio: tic, tac; tic tac. As horas são contadas, os minutos são desesperadores e os segundos, escassos. "Não tenho um segundo, não me peça um segundo." O que vamos fazer sem tempo?
Se o tempo por si só é inatingível, ainda assim digo: estamos destruindo ele.
Quando passamos por cima dos nossos próprios passos, significa que estamos andando por cima dos nossos próprios pés. Não é vida assim, se for dessa forma eu não quero. E o corpo é o que? Uma casca? Quem eles acham que são pra roubar o nosso tempo?
Meu coração segue o compasso do tique-taquear de um tempo que não é meu: é tempo de frenesi escarlate.
É tempo de correr, cruzar as ruas como ladinos encapados, com as adagas encaixadas em um coltre e ocultas pela sujeira cinzenta das indústrias. É tempo de correr, com ou sem máscara, pois o bem-estar - ou melhor, bem-viver - já não é mais prioridade. Gritam: "lutamos pelo nosso direito inalienável de morrer!" É tempo de ladinos, não existe mais coletividade: todos são solo-players. Gritam mais uma vez: "lutamos pelo nosso direito inalienável de competir!" Mas a competição já se torna injusta e insustentável. Compitam, o tempo todo, por qualquer motivo. Se querem sobrevier, compitam. Quando o veneno de vossas adagas se precipitarem contra o suco vital de vosso inimigo, só então terão alcançado o sucesso: o corpo virou uma casca, os não-merecedores morrem de fome.
Eu não reclamo da noite, pelo contrário, eu a amo. Eu reclamo porque o povo não pode mais ver as estrelas quando olham pro céu noturno.
Não se trata do frio - isso quando ele não é provocado por nossas irresponsabilidades ambientais -, e sim daqueles que morrem de frio. Ninguém morre sozinho, então quem os mataram?
É tempo de frenesi escarlate, o céu sangra vermelho e todos se ocultam em suas capas acinzentadas nos becos.
Ainda assim, esboços de um outro movimento estão sendo riscados.
Comentários
Postar um comentário