ABERRANTEMENTE,
Me acostumei a dormir,
comer, a fazer toda sorte
de coisas vãs importantescomer, a fazer toda sorte
E eu enrolo, enlaço, torço
e retorço o meu corpo
ao passo que não consigo
muito bem torcer as minhas
palavras, como roupas
retorcidas na máquina de lavar
que eu chamo de ra-
zão? Que às vezes cospe ao ar
coisas como INSENSÍVEL,
INSANO, adjetivos arbitrários.
Só que INSENSIBILIDADE e INSANIDADE
são, agora, substantivos
inarbitrários - eles rodam na máquina
que, volta e meia, se golpeia.
A água ameaça ser drenada
mais uma vez - torço o rosto,
olho feio, grito novamente.
Desisto das palavras só nas ideias,
pois quando me torço demais
elas brotam como que grama
vazando por entre um chão de concreto.
Mas aí eu me acostumei
a dormir com o meu corpo contraído
e as palavras foram embora.
Por meses, esperei-as
aberrantes e berrando PRETENSÃO,
INTIMIDADE - ou INTIMIDAÇÃO?
A fronteira entre essas duas é tênue,
intimidade é a marca.
E berro, aberrante: PRESUNÇÃO!
IMPOSSIBILIDADE! CAPITALIZAÇÃO!
PRODUÇÃO, ORGANIZAÇÃO,
ISENÇÃO, COERÇÃO…
O que mais eu grito?
Será que deveria
pois quando me torço demais
elas brotam como que grama
vazando por entre um chão de concreto.
Mas aí eu me acostumei
a dormir com o meu corpo contraído
e as palavras foram embora.
Por meses, esperei-as
aberrantes e berrando PRETENSÃO,
INTIMIDADE - ou INTIMIDAÇÃO?
A fronteira entre essas duas é tênue,
intimidade é a marca.
E berro, aberrante: PRESUNÇÃO!
IMPOSSIBILIDADE! CAPITALIZAÇÃO!
PRODUÇÃO, ORGANIZAÇÃO,
ISENÇÃO, COERÇÃO…
O que mais eu grito?
Será que deveria
espaçar
minhas palavras?
Será que palavras juntas são
D
E
N
S
A
S
demais?
Mas é ARBITRÁRIO, até que não seja mais.
Que sentido se abstrai do arbitrário
e que arbitrariedade se abstrai do sentido?
Quando é pra DESCENTRAR,
eu me RETORÇO
e me CENTRO ainda mais.
Me centro, concentro, digo “eu sou”,
porque já não se pode ser coisa que não é.
Não se pode dizer coisas que não se diz.
Alice, é como se você dissesse que
“eu digo o que entendo” é o mesmo que
“eu entendo o que digo”,
mas ENTENDER é palavra capitalizada
Que sentido se abstrai do arbitrário
e que arbitrariedade se abstrai do sentido?
Quando é pra DESCENTRAR,
eu me RETORÇO
e me CENTRO ainda mais.
Me centro, concentro, digo “eu sou”,
porque já não se pode ser coisa que não é.
Não se pode dizer coisas que não se diz.
Alice, é como se você dissesse que
“eu digo o que entendo” é o mesmo que
“eu entendo o que digo”,
mas ENTENDER é palavra capitalizada
em um poema muito torcido.
E então, de novo, eu gritei aberrante:
PA-LHA-ÇA-DA, PA-NA-CA;
letras e sílabas são coisas arbitrárias,
pisque os olhos: pra que serve o que eu grito?
E quando a língua voltou para a minha boca
e os meus dedos retomaram o seu curso,
percebi que havia mato surgindo da fresta
na parede do meu quarto.
Arranco o mato, MATANDO o mato
eu COMO o que é MEU-NOSSO
e cuspo o que é SEU.
Tudo entra em mim e sai de mim,
tudo atravessa e engancha;
eu estou no centro
da porra de uma grande engrenagem
que, no momento,
é uma cama de casal
sem espaço pra solteiro
e, pra dormir, eu me retorço por inteiro.
Travo corpo, travo perna
e BERRO.
BERRO DO JEITO QUE SEI - SER
ABERRANTEMENTE ESCREVO
E ARRANCO DO CONCRETO
letras e sílabas são coisas arbitrárias,
pisque os olhos: pra que serve o que eu grito?
E quando a língua voltou para a minha boca
e os meus dedos retomaram o seu curso,
percebi que havia mato surgindo da fresta
na parede do meu quarto.
Arranco o mato, MATANDO o mato
eu COMO o que é MEU-NOSSO
e cuspo o que é SEU.
Tudo entra em mim e sai de mim,
tudo atravessa e engancha;
eu estou no centro
da porra de uma grande engrenagem
que, no momento,
é uma cama de casal
sem espaço pra solteiro
e, pra dormir, eu me retorço por inteiro.
Travo corpo, travo perna
e BERRO.
BERRO DO JEITO QUE SEI - SER
ABERRANTEMENTE ESCREVO
E ARRANCO DO CONCRETO
A SEIVA DO MATO QUE ME FAZ CRESCER.
Voltaram as palavras que há muito
me foram roubadas - ROUBO,
ME TOMAM AS PALAVRAS.
Precisam das palavras porque
elas não servem a nada e há perigonaquilo que não serve: SERVE,
SERVO, SERVENTIA - EU NÃO SIRVO.
Servir é a maior palhaçada que já ouvi
hoje e em todos os séculos que já vivi
e viveram os que, hoje, vivem em mim.
SERVENTIA. MERECIMENTO. PROPRIEDADE.
É tudo palhaçada.
Ainda assim, pra dormir, eu me torço.
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