ALICES E CLARICES

Tirai os teus óculos, a vista entardece;

Baixaram as estrelas e, ainda sem nome,

um corpo reclama. Ouvi tuas preces

soando ao longe: são gritos marcados

de brasa e de fome. Percebes que,

no fim, precisas de vidro para enxergar?


E então disse assim: te olhas no espelho,

não te reconheces. Os olhos dos mortos

também entardecem - saúdam a Aurora

manchada de terra e de cinzas.

Em três poucas núpcias teus números vingam,

aleatórios como se existissem coincidências.


E então tu tira teus óculos e a vista escurece,

mas te escrevem mensagens, e, que mal me interesse,

tu precisa das lentes para lê-las.

Te escrevem mensagens nos cantos de tuas costelas,

nas principiantes mazelas que a tua cabeça

ainda teima sentir. Te escrevem nomes nos contos

e se te encaixam em mil desencantos

e pra que tu aprenda a sorrir. 


Existem mil carinhos que descem fazendo

algazarra na ideia dos teus cabelos,

nunca completos, sempre uma ideia.

Dedos repousam a face que teimas não ser tua

antes que o óleo escorregue e o vento te esqueças.

E então, mais uma vez, com olhos de entardecer

e um coração cheio de queixas, tu olhas

pela janela, para o breu da noite rasteira,

e divaga, pergunta, elabora faceira:

“Me deem um nome, quem és eu?”


Sabe bem, pergunta sorrateira, que ser eu

é antes ser-tu e que no Outro tu passa

não-passando. Se tu queres um nome,

és acertada, acertado, simplesmente de raspão.

E mais uma vez tu põe tuas lentes e entende

que a névoa e as nuvens não estão só lá fora:

também, aqui dentro, elas borram tua visão.


Mas tu senta e escreves, te escreves mil cartas

pois as palavras não te deixam ir.

Tu te irritas e odeias os dias e as seitas

de poetas que fazem ruir.

Tu amaldiçoa os nomes de todos os homens

que te fizeram nascer e sentir

que vida trapaceira só bate certeira

e que é o que é, não pode se construir.

Tu rasga o teu peito e, com muito receio,

talha roupas que profanam o vestir.

Tu te olhas e odeias os dias e as seitas,

pais e filhas, e filhos, e a si.


Se rebela na cama, cadê as estrelas?

E, de novo, teu nome não está aqui.

Tu se torce, gira, eis a sua sina! Olhe ao redor,

não há pra onde ir. Tu grita e reclama,

se agarra na cama: as crianças estão a morrer - você diz,

mas a vida é estranha, eles riem, você apanha

e se desgraça, é o processo de ouvir.


E mais uma vez você senta e escolhe suas lentes

mas seus olhos não funcionam mais.

Pois tu fechas teus olhos, delira um amor

que não pode te deixar pra trás…

Mas amor tão distante te provoca um rompante

e palavras vêm te atormentar;

Uma vez tão falante, não mais só ficante

na pousada dos boêmios à beira-mar.


Uma última vez, tu te convence,

e que danem-se as lentes, já não precisa

de todo enxergar. Não importa o renome

e que explodam os nomes, se não tem 

direito ao grito, então vai gritar.

As palavras te rasgam e as rimas estragam

o sonho de um caos impensado,

mas você trai a escrita e dos escritores se vinga

sendo aquela que vai desandar.


Você pensa Clarice no corpo de Alice

e se pergunta “o que raios elas fariam?”

Clarice não é ele nem ela, Alice também

não dá trela, olhariam pro céu e ririam.

Ririam do que, tu te perguntas, se a vida não faz o menor sentido?

Se te acorda o delírio e perdura o martírio,

que ilusão poderiam te dar?

Riram da escrita, que é pouca; da tua voz,

que está rouca e da cegueira que vai te matar.

Riram do fardo que é um nome

e do medo que consome

quem se rasga no meio e se dá.


E quando enfim te pareces que em uma só prece

o texto que escreves está pra acabar,

então ó, Deus, que engano! Pobre ser humano,

vamos ver no que isso vai dar.

Porque tu veste tuas lentes de gente-que-não-é-gente

e se põe a experimentar. As palavras te assaltam,

rimar é inevitável e o céu da noite não pretende acabar.


E tu senta e escreves, profere exegeses

pois as palavras não te deixam ir.

Tu te irritas e odeias os poetas e as seitas

de poemas que te fazem existir.

Tu amaldiçoa o nome de cada um dos autores

e autoras que te trouxeram aqui,

mas tu cria e recria, se morde e se esguia

pelos becos da escrita a ruir.

Na ausência de um nome e presença da fome

tu escreves pra poder viver;

É que se riem Alices e fumam Clarices,

tu escreves só pra não morrer. 


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