mensagens cantadas nos silêncios inquietantes
Na metade de um nome tem um grito
No meio daquela estrada havia um sinal deixado só para mim
Não consigo ouvir a tua voz, teus lamentos,
Não sei respeitar o tempo, o meu, o teu, o dela, o tempo do tempo
A fruta verde na mesa vai murchando
Os móveis conversam sobre coisas que não quero ouvir
Há meses não durmo
Não tenho forças para sair
A casa tornou-se minha prisão,
a chave na porta queria zombar de mim
da minha fraqueza, meus tremores, meus esquecimentos, meu terror ao meio-dia
Mas ele treme na fechadura, como se soluçasse
Como se pudesse ter vida e tendo-a
Repete para mim em sons metalizados
“Vai embora daqui e não de si,
Não tenha medo das pessoas
De ouvir
De rodar, de ver, de fechar os olhos
Medo dos escuros e de se desequilibrar
Tudo aqui testemunha todos os dias
Teus pulmões sufocados, tua língua parada
A desesperança se fechando em teus poros
E como a casa, teu corpo também cheira a morfo
Eu abro todas as portas desta casa
Mas só você pode abrir-se e se libertar
Arejar teus templos, teus quartos,
Tua cabeça, teus jardins no estômago
Nem toda ato de abrir precisa de volta e reviravolta
Destranca-te
Vai ao contrário e sai
Vai para sempre sem nunca mais voltar
Dar a volta, pestanejar"
Eu, sentada na penumbra, não me exaspero
Se, porventura, algum ser dos ambientes que o olhar não distingue, acaso queira se aproximar e sentar-se ao meu lado
Dentro dessa solidão de inquietações punitivas
E lançar questões que busco respostas
Cada vez que pisco os olhos
Na esperança de, na próxima vez, ver uma estrela cadente, um vaga-lume, palavras escritas nos espelhos
Desaprendi meu corpo
Vestir e combinar as roupas
Não consigo harmonizar as cores
Ou pentear meus cabelos
Sem que não pareçam ter sofrido
Naquele vendaval que prometeu arrancar a janela
Ou no sonho suor de minutos atrás
Há uma porta aberta
um grito solto
um coração selvagem refazendo-se em histórias ainda não contadas esperando serem ouvidas, sabidas, transformadas, batendo forte, um grande tambor dentro da noite
Queria que machucasse o meu peito
Destruísse esse mundo
Soando forte, levanta os ossos do meu corpo morno, se não saio eu inteira, que saia eu aos pedaços
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